O fim
e tudo que deixamos para trás.

— Este é o fim. Ela disse, enchendo seus pulmões de ar, enquanto olhava para o céu da noite estrelada. Como se buscasse forças nas coisas majestosas da natureza. — Por que não diz isso olhando nos meus olhos? Tentei provocar, de maneira tola, acreditando que dessa forma poderia ainda salvar algo. Estava enormemente enganado. — Esse…é o nosso fim. Olhou-me bem no fundo da retina, com seus olhos verdes de mar com algas. Eu não sabia que havia tamanha coragem dentro dela. Sempre tão amável, dócil, gentil. Sempre um abraço, cafuné, beijos na testa. Movimentos singelos de uma pessoa singela. Mas não naquela noite. Ali havia uma mulher com um oceano inteiro em chamas. O que havia mais a ser dito? Tentar argumentar, persuadir do contrário? Não me parecia ser possível. Era um ultimato fatal. Ainda assim, debilmente falei eu, agora em sussurro de uma criança amedrontada por monstros. — Por que? Colocou a mão macia sobre a minha face. Prendi a respiração na esperança que mudasse de ideia tamanha a minha surpresa com o gesto vindo daquela mulher, naquela noite. Porém mais uma vez enganado por minha própria mente.
— Você sabe. Você também sente e sei disso. Daqui não há retorno. Um de nós precisa partir. Se não vai você, então vou eu. Vai doer menos assim; Meus olhos marejaram. Os dela não. Mantinham-se invictos na decisão. Pensei o que seria pior…partir ou ser deixado para trás. Refleti por certo tempo, pois ela não tinha pressa. Ao fim, cheguei a conclusão que era corajoso demais ela partir e de que o covarde era eu. Por deixar doer por tanto tempo e não fazer nada a respeito. — Eu vou ficar bem. Saiu de maneira tão fácil da boca dela. Como se eu realmente houvesse feito a pergunta em voz alta. Mas não havia dito nada. Será que percebera no meu olhar minha preocupação por ela? Não sabia, portanto reuni também alguma coragem dentro de mim e a enlacei em um abraço apertado. Será que passaria pela mente dela que este era um abraço de cárcere privado? Senti seu corpo magro e pequeno contra o meu, colado de ponta a ponta. Ela deixou apoiar a cabeça em meu peito; Achei que era uma migalha para o que eu de fato necessitava. Mas era tudo o que ela poderia me dar. Um adeus em claros termos e a cabeça a tocar meu corpo. E não haveriam mais beijos, nem suspiros, não haveria mais a nossa música, nem os filmes vistos, não haveria os sussurros secretos nas madrugas, nem o banho juntos, não haveria mais minha mão gigante entrelaçando nos pequenos dedos dela, não haveria mais o cheiro do suor do nosso sexo, nem gemidos dentro das bocas coladas, não haveria mais miojos com manteiga, nem pipocas altamente salgadas, não haveria mais carinhos no escuro do cinema, nem fotos nos restaurantes de comida japonesa. Não haveria mais a nossa casa. Não haveria mais ela comigo nem eu com ela. Não haveria mais nós. Era o fim. E se soltando do abraço que nos permitia ocupar o mesmo espaço de moléculas misturadas…ela partiu.

